domingo, 26 de agosto de 2012

“Que o Cordeiro que foi imolado receba a recompensa do seu sofrimento”




Há quase 300 anos dois jovens ousaram ir além de tudo o que se considera “aceitável” para fazer o nome do seu Salvador conhecido. Uma história extraordinária de dois servos que jaz ofuscada, quase esquecida. Os Moravianos sempre foram conhecidos por compreenderem a responsabilidade da evangelização e seu alvo eram povos rejeitados.

Dentre esses, dois jovens se levantaram e abriram mão de tudo, não consideraram em nada suas vidas por preciosas, se humilharam diante dos homens para cumprir aquilo que ardia em seus corações. Eles ouviram a respeito de um senhor britânico ateu que tinha tomado 2000 africanos para serem seus escravos numa Ilha no leste da Índia, onde trabalhariam cultivando a terra.


O coração dos jovens se contorceu só de imaginar que todas essas pessoas passariam o resto de suas vidas confinadas sem jamais ouvir falar sobre o amor do Pai. Tentaram contato com o dono, se ofereceram para evangelizar essas pessoas, mas a resposta foi imediata e negativa.

Seria o ponto no qual a maioria de nós desistiria, para eles foi a motivação para tomar a decisão mais difícil de suas vidas: vender-se como escravo. Eles poderiam suportar o fato de viverem confinados pelo resto de seus dias, mas jamais suportariam saber que tantas almas morreriam sem salvação. O valor da venda pagou a viagem até a ilha, depois disso jamais se receberam notícias dos dois.

Passaram o resto de suas vidas trabalhando pela salvação daquelas pessoas. Essa é uma história preciosa, dentre tantas outras de homens e mulheres de Deus que se levantam e ousam cumprir a carreira que lhes é proposta, que entendem que não é justo vivermos uma vida para nós mesmos sendo possuidores de tão grande boa-nova! Mas histórias assim não são tão contadas… Elas incomodam.



Há uma canção chamada “Tears from the saints” (Lágrimas dos santos) de uma banda americana chamada Leeland, cujo refrão diz o seguinte:

“Existem lágrimas dos santos/ Pelos perdidos e não salvos/ Nós estamos clamando para que eles voltem para casa/ Nós estamos clamando para que eles voltem para casa/ E todos os teus filhos estenderão suas mãos/ E levantarão o homem aleijado/ Pai, nós os guiaremos para casa/ Pai, nós os guiaremos para casa”.

Uma letra profunda que só pode ter-se originado num coração que compreendeu o amor de Jesus pelos perdidos e da mesma forma entendeu que é nossa missão trazê-los para Casa.

Mas músicas assim não são tão ouvidas, nem tão cantadas… Elas incomodam.



Onde estão nossas lágrimas pelas vidas que estão se perdendo, cegas pelo pecado? Secaram ou nunca estiveram em nossos olhos? Onde está uma das principais atitudes ensinadas por Jesus, a compaixão? A igreja (me referindo aqui às pessoas, ao corpo) tem de fato se compadecido daqueles que estão sem esperança? Deveríamos ser conhecidos pelo nosso amor…

 Mas em que momento deixamos de amar e passamos a acreditar que investir é o suficiente? Terceirizar? Pagar para que os missionários o façam. Não!
Abrir o bolso não compra para ninguém o “não ide”.

Investir é necessário sim, mas a grande comissão se estende a todos os santos e o ide implica em fazer algo mais.

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25:35-40).

Jesus não é o nosso Senhor? A quem devemos seguir? Não é Ele nosso exemplo de vida? Pois este é o coração que ele nos revela, que se quebranta e se compadece dos seus “pequeninos”.

Quanto mais próximos nos achegamos à Ele, mais aprendemos a sentir com seu coração. Charles Spurgeon, um pregador britânico do séc. XIX, diz o seguinte:

“Se você ficar muito tempo a sós com Jesus, você captará o Seu Espírito; você será inflamado com a chama que queimava em Seu peito e que consumia a Sua vida. Você chorará com as lágrimas que caíram sobre Jerusalém quando Ele a viu perecendo; e embora você não possa falar de forma tão eloqüente quanto Ele falou, naquilo que você diz deverá haver algo do mesmo poder que havia nEle e que emocionava os corações e despertava a consciência dos homens”.


“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28:19). 

A grande comissão é uma só e se estende a todos nós.

O chamado é um só e se estende a todos nós. A responsabilidade dos que se perdem também se estende a todos nós. Certa vez ouvi o Pr. Edward Luz dizer a respeito de pessoas que usam a famosa frase ‘se Deus me chamar para missões, eu vou… Mas Ele não me chamou’ : “essas pessoas acabam jogando para o próprio Deus a responsabilidade de não terem sido ‘chamadas’”.

A grande verdade é que a maioria das pessoas nunca se dispôs de fato à obra para deixar que Deus falasse com elas. Sophia Muller, a missionária americana que passou quase 4 décadas evangelizando entre os índios, quando questionada a respeito de seu chamado respondeu: “eu nunca recebi um chamado, eu li uma ordem e obedeci”.



O ide abrange o mundo, assim sendo o exato lugar em que você se encontra está incluído. Todos somos chamados a ir, uns às nações, outros à comunidade local, ainda assim chamados à ir.

Alcançar almas perdidas não se limita a quatro paredes de uma igreja (agora no seu sentido físico), o ide as transpõe. Que o desejo do seu coração não seja entender qual é o seu chamado, esse você já tem, mas entender qual o seu papel na obra de Deus. Para isso é necessário primeiro um coração apaixonado, que compreende e vive o grande amor dEle pelo mundo. Depois disso, uma alma cingida de humildade e disposição, ciente de que servir implica em sacrifício e renúncia, as quais nunca serão nada se comparadas ao que Jesus renunciou para tomar sobre si o peso e a dor dos nossos pecados.

Histórias como a dos jovens moravianos devem nos inspirar, e não incomodar. Nossos corações devem ser tomados de desejo por alcançar vidas e nossas orações devem se estender aos perdidos.

Isso é viver o cristianismo em essência e simplicidade, tal qual Jesus nos ensina. E que no mais íntimo do seu ser permeie a mesma motivação daqueles dois valorosos jovens moravianos que, ao embarcarem no navio rumo ao seu destino, gritaram àqueles que, com lágrimas, davam os últimos acenos de despedida:“Que o Cordeiro que foi imolado receba a recompensa do seu sofrimento”.

Fomos comissionados e nossa missão precisa ser completada.



Para terminar, cito a frase do Pr. Santareno:

“onde houver uma necessidade, há também um chamado”. 

Seja a diferença onde você está. Seja a diferença hoje.



“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.” (At 20:24)



“…apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus…”(Rm 12:1)

Thais Baldassarre Guimarães