quarta-feira, 18 de julho de 2012

APELO FANÁTICO AO ESPÍRITO EM DETRIMENTO DA ESCRITURA. (JOÃO CALVINO)




Ademais, aqueles que, repudiada a Escritura, imaginam não sei que via de acesso a
Deus, devem ser considerados não só possuídos pelo erro, mas também exacerbados
pela loucura.

 Ora, surgiram em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-
se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de
toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como
eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.

Eu, porém, gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração se
transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o
ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é
absurdamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos
de Cristo, e os demais fiéis na Igreja primitiva, foram iluminados não por outro
Espírito.


O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menosprezo pela Palavra de
Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos
o atestam mui luminosamente. E, na verdade, assim fora predito pela boca de
Isaías.

Pois o povo antigo não cinge ao ensino externo como se lhe fosse uma cartilha
de rudimentos, onde diz: “Meu Espírito que está em ti, e as palavras que te pus na
boca, de tua boca não se apartarão, nem da boca de tua descendência, para sempre” [Is
59.21], senão que ensina, antes, haver de ter a nova Igreja, sob o reino de Cristo, esta
verdadeira e plena felicidade: que seria regida pela voz de Deus, não menos que pelo
Espírito. Do quê concluímos que, em nefando sacrilégio, estes dois elementos que o
Profeta uniu por um vínculo inviolável são separados por esses biltres.

A isto acresce que Paulo, arrebatado que foi até ao terceiro céu [2Co 12.2],
entretanto não deixou de aprofundar-se no ensino da lei e dos profetas, assim como
também exorta a Timóteo, mestre de singular proeminência, a que se devotasse a
sua leitura [1Tm 4.13]. E digno de ser lembrado é esse elogio com que adorna a
Escritura: “é útil para ensinar, admoestar, redargüir, a fim de que os servos de Deus
se tornem perfeitos” [2Tm 3.16]. De quão diabólica loucura é imaginar como se
fosse transitório ou temporário o uso da Escritura que conduz os filhos de Deus até
a meta final!

Em seguida, desejaria que também me respondessem isto: porventura beberam
de outro Espírito além daquele que o Senhor prometia a seus discípulos? Ainda que
se achem possuídos de extrema insânia, contudo não os julgo arrebatados de tão
frenético desvario que ousem gabar-se disso. Mas, ao prometê-lo, de que natureza
declarava haver de ser esse Espírito? Na verdade, um Espírito que não falaria por si
próprio; ao contrário, que lhes sugeriria à mente, e nela instilaria o que ele próprio
havia transmitido por meio da Palavra [Jo 16.13].

Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas
revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados
do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na
mente aquela mesma doutrina que é recomendada através do

João Calvino, em as Institutas da religião Cristã, Livro I, Capitulo IX, tópico I